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domingo, 2 de abril de 2017

(EDUCAÇÃO, CULTURA E LITERATURA) Terra Brasilis


Mais um texto que faz parte do resultado de um trabalho realizado em sala de aula, durante o processo de ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa e suas Literaturas. A sequência didática teve início com a apresentação de seminários de leitura de textos literários por turmas de 1º Ano do Ensino Médio do Instituto Federal de Educação e Tecnologia - Campus Mossoró/RN, abrangendo, desde a literatura trovadoresca à Árcádia Brasileira. Na sequência, elegemos a temática da Literatura de Viajantes e de Catequese para a realização de um debate (como atividade de produção oral) e um texto em forma de artigo, nos quais fossem defendidas teses acerca dos efeitos da Colonização no Brasil. Os alunos teriam que deixar claros resultados para o colonizador ou o colonizado. Tudo com base na leitura de textos literários. 

Os melhores textos, prometi postá-los aqui no blog. Eis aí o segundo texto escolhido como um dos melhores:


Pedro Duarte Costa 

TERRA BRASILIS


Os estrangeiros, eu sei que eles vão gostar
Tem o Atlântico, tem vista pro mar
A Amazônia é o jardim do quintal!
[...]
Nós não vamos pagar nada
Nós não vamos pagar nada
É tudo Free,
Tá na hora agora é Free,
Vamo embora
Dar lugar pros gringo entrar”


Os trechos acima pertencem a canção “Aluga-se” do célebre cantor Raul Seixas, que define (de forma irônica) um período da história do do nosso país que nos definiu enquanto nação e sociedade: a colonização. No período das Grandes Navegações, Portugal e Espanha despontavam como potências marítimas, lançando diversas empreitadas ao mar e conquistando territórios por todo o globo, notadamente a América, único continente que ainda não estava integrado ao “mundo conhecido”. Liderados por Pedro Álvares Cabral, os primeiros europeus desembarcaram no nosso país no ano de 1500 e assim se iniciou o processo de colonização do nosso país, perdurando por mais de 300 anos, influenciando até hoje o modo como vivemos e a realidade da nação.

 Inicialmente pouco relevante para a metrópole, a colônia brasileira ganhou importância após a perda do monopólio português sobre as especiarias indianas, iniciando assim um efetivo controle sobre o território que hoje forma o Brasil, com a criação do Governo Geral e a implantação do modelo de produção plantation. Ficou claro que Portugal visava sua colônia como fornecedora de matérias-primas, como é observado na exploração do Pau-Brasil, primeira degradação ambiental do país que devastou a Mata Atlântica, um rico e diverso bioma que hoje possui apenas 7% da área original. A cana-de-açúcar foi um dos sustentáculos da economia colonial do século XVI, definindo a afirmação do modelo latifundiário que até hoje predomina no setor primário e que é a base do agronegócio nacional: extensas propriedades de terra tendo uma única cultura cultivada sob o mando de poucas famílias, objetivando a importação, em detrimento de pequenos agricultores, que sofrem com a falta de infraestrutura, incentivos governamentais e com a concorrência das grandes empresas, além dos inúmeros trabalhadores que lutam pelo direito à terra.

 A centralização do poder e a existência do pacto colonial levaram a um retardamento do progresso econômico brasileiro: a indústria, proibida pelo governo português, só foi implantada no século XIX e se consolidou no século XX; a agricultura foi durante a maior parte da história do país a base da economia, tornando a macroeconomia sensível aos mercados externos e as crises climáticas e condições naturais; os produtos manufaturados só podiam ser importados da metrópole sob uma carga de tributos altíssimo. A descoberta do ouro e outros minerais preciosos no século XVII serviu apenas aos interesses da monarquia, não trazendo nenhum benefício para as regiões mineradoras.

 Uma das mais graves consequências da sangrenta colonização foi o extermínio dos povos indígenas e o desaparecimento da cultura nativa. Os portugueses em um primeiro momento iniciaram a sua escravização, levando milhares as mortes devido a mudança abrupta no seu estilo de vida e brutalidade dos europeus que possuíam tecnologia militar mais avançada não hesitando em realizar massacres. As transmissões de doenças oriundas da Europa também contribuiu para a dizimação dos povos nativos, que foram submetidos as hostilidades europeias como o fato de mulheres indígenas terem se tornados concubinas e submetidas à estupros. Mesmo contando com a proteção da Igreja, que era uma ferrenha adversária da escravização indígena (como se observa na ação da poderosa Companhia de Jesus), os indígenas viram sua cultura desaparecer pois os missionários exigiam uma conversão total, renegando as tradições, práticas e costumes dos chamados “gentios”, forçando-os a adotarem o cristianismo e o estilo de vida dos povos da Europa. Estima-se que no período pré-Cabral existiam mais de 5 a 10 milhões de índios que falavam mais de 1500 línguas. Hoje restam apenas cerca 800 mil brasileiros que se declaram índios e pouco mais de 300 idiomas nativos, uma verdadeira catástrofe socio-cultural. Esse tratamento dado aos índios até hoje influenciam uma cultura preconceituosa e estereotipada, sendo que muitos negam o legado indígena e sua contribuição para a formação da nação brasileira.

 Uma das características mais brutais da colonização da portuguesa foi a escravização dos africanos. A resistência indígena e os protestos da Igreja levaram a Coroa a recorrer uma mão-de-obra muito mais produtiva e lucrativa: o negro africano. Milhões cruzaram o Atlântico e foram submetidos as mais vis condições, eram tratados como objetos: eram vendidos, castigados, estuprados, etc. A economia baseada na escravidão foi um baluarte do país até o final do século XIX e somente na década de 1940 é que se estabeleceu a mão de obra livre e assalariada, base de uma economia moderna. A escravidão deixou traços que até hoje marcam a sociedade brasileira: o preconceito racial e exclusão dos negros é uma grave problema que o Brasil ainda enfrenta. Joaquim Nabuco afirmou que, mesmo depois da Abolição, “a escravidão permanecerá durante muito tempo como característica nacional do país”.

 O modelo lusitano de colônia de exploração resultou em um Estado burocratizado e pouco funcional que hoje é um verdadeiro tormento na vida dos cidadãos. Sua letargia em responder aos problema sociais, políticos e econômicos gerou a grave situação social presente no nosso país. O Estado brasileiro já foi descrito como “cliente das elites” devido o seu domínio pertencer as mais importantes classes brasileiras: branca e rica. Um restrito número de pessoas possuem a maior parta da riqueza e controlam a educação, extremamente defasada e subserviente aos seus interesses (forma mão de obra barata e servil), a mídia (parcial e alienadora), política (oligárquica e corporativista, propiciando o surgimento da corrupção) e as leis (branda com os poderosos e rígida com os pobres). A inércia dos governantes reflete na triste realidade social que impera pelo Brasil, produzindo assim altos índices de violência e péssimos serviços públicos.

 Por fim, constata-se que a colonização do Brasil por Portugal, exploradora, sangrenta e brutal, resultou em uma série de consequências que persistem até atualidade. Um verdadeira violação do mais fundamental, humano e natural dos direitos: a liberdade e a autodeterminação, como bem expressou o estadista norte-americano Thomas Jefferson na Declaração de Independência dos Estados Unidos:

“Todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade”.


PEDRO DUARTE COSTA é aluno do curso de Eletrotécnica do IFRN - Campus Mossoró/ RN


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