PROIBIDO COMENTÁRIOS ANÔNIMOS

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domingo, 4 de novembro de 2018

(ARTIGO DE OPINIÃO) ESCOLA SEM PARTIDO?

*Artigo de Magda Becker Soares - professora emérita da Faculdade de Educação da UFMG


Foto Foca (UFMG).

Discutir uma escola sem partido convoca evidenciar sua impossibilidade, e não só porque é mais uma tentativa de censura — neste caso, felizmente, das mais ineficazes, porque pretende calar aqueles cuja função, por atribuição da Constituição e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, é formar crianças e jovens para a cidadania, de que são princípios fundamentais a liberdade de expressão e o desenvolvimento da criticidade; é uma impossibilidade (uma ingenuidade?) porque se constrói sobre pressupostos que não se sutentam.

Escola sem partido: a expressão remete inevitavelmente a partido político, embora se venha negando que seja esta a intenção. Escola sem partido seria a escola incontaminada por partidos políticos? Por algum dos 35 partidos que, surpreendentemente, o país tem hoje? Acredita-se que cada um desses 35 partidos defende próprias e exclusivas convicções sociais, políticas, morais, religiosas — defende uma “ideologia” — , e pretenda impô-la às escolas? Impossível.

Por outro lado, se sem partido se refere a posicionamentos pessoais de professores — sociais, políticos, morais, religiosos (ideológicos?) — a falácia está em supor que o ser humano é capaz de se manter “neutro” em suas interações, sejam sociais, sejam, como pretende a escola sem partido, pedagógicas. A proibição de “doutrinação” comete o equívoco de julgar que as convicções de um ser humano, neste caso o professor, só se manifestam pela palavra: supõe-se que, proibindo a palavra, fica proibida a “doutrinação”. Um equívoco, porque não são só as palavras que expressam convicções, mas o ser humano como um todo, que, ainda que tenha a palavra proibida, revela-se por seu modo de agir, de decidir, por seus comportamentos; pode-se até tentar calar o professor, mas não se calam as mensagens que ele comunica por meios não verbais, mesmo se tenta “censurar-se”. Impossível.

Além disso, há na educação básica em nosso país, atualmente, mais de 2 milhões de professores. É possível transformar tantas centenas de professores em robôs que se limitem a repetir conteúdos? como se também conteúdos pudessem ser “neutros”: é possível falar de forma “neutra” da escravidão? do Holocausto? das guerras? do terrorismo? da miséria do mundo? é possível levar a literatura aos alunos sem os textos, os livros, pois estes nunca são “neutros”? Impossível.

E mais: serão os alunos, os quase 50 milhões de alunos das escolas brasileiras, os seres passivos que supõe a Escola sem Partido, a “audiência cativa” que se deixa facilmente influenciar pelos professores? O que dizer então da indisciplina, que tão frequentemente os professores enfrentam? o que dizer dos movimentos estudantis que invadem as ruas, que ocupam as escolas? Impossível.

Escola sem partido? Só como ficção. Felizmente.

NOTA: Magda Soares é uma das principais pesquisadoras brasileiras sobre o tema: Alfabetização e Letramento. 

*Artigo publicado originalmente pelo Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale) da UFMG

terça-feira, 30 de outubro de 2018

[HISTÓRIA] A DIVISÃO E A CONSTITUIÇÃO DA BARBÁRIE NO PAÍS DOS TAPUIA




É limitado o número de brasileiros e nordestinos que têm o conhecimento de que desde 1500, no início da colonização do território Pindorama (primeiro nome do Brasil), já havia uma divisão entre as diversas regiões e o lugar que hoje denomina-se de Nordeste. Tudo isso quando os lusitanos chegaram à terra que eles já dantes compreendiam como parte das “Índias”, termo que indicava os territórios a serem conquistados pelo projeto de navegação dos europeus em crise econômica.

Arqueólogos e antropólogos, dentre os quais citam-se, respectivamente Valdeci dos Santos Júnior (2008) e João Pacheco Oliveira (2004), apontam que quando os portugueses chegaram ao Pindorama, existiam aproximadamente seis milhões de povos originários da terra. Estes falavam cerca de 600 línguas diversas em todo o território. Mas, na parte Nordeste, estavam situados os povos “tapuias”. Este termo é explicado por Pires (2002) como sendo definido pelos Tupi e significa “o selvagem”, o bárbaro, os inimigos contrários. Pode ser também identificado como o nome de uma das classificações dadas pelos portugueses para os povos ameríndios em dois grandes grupos: os Tapuia e os Tupi. Estes ocupavam os litorais e matas tropicais, aqueles os interiores e a caatinga.

Os historiadores, arqueólogos e antropólogos são consensuais em compreender que alguns Tapuia fugiram de outras regiões do Brasil onde a colonização chegara e os expulsara. Da mesma forma, já anteriormente aos europeus, esses grupos já haviam sido expulsos pelos Potiguara – que os empurraram do litoral para os interiores.

Em síntese, os Tapuia eram os povos que habitavam a região Nordeste do Pindorama, território que no ano de 1527 foi nomeado definitivamente como Brasil, após ter passado por uma sequência de mudanças de nomes. E um dos viajantes portugueses da época, Gabriel Soares de Souza, deixa isso muito bem assinalado em um de seus registros, chamado de Tratado Descritivo do Brasil, escrito em 1587, quando menciona que os Aimoré tinham origem em outros gentios que eram chamados de “tapuias”.

As línguas faladas pelos povos Tapuia foi o primeiro motivo de separação deste povo dos indígenas brasileiros das outras regiões, além de serem também mais selvagens, dotados de valentia mais intensa, tanto que foram chamados de bárbaros, embora, estudiosos atuais tenham explicações pertinentes para não os conceber como povos bárbaros.

Segundo Santos Júnior (2008), os troncos linguísticos falados pelos Tapuia do sertão do Nordeste eram quatro: o Tupi, o Macro-Jê, o Aruaque e um grande grupo de línguas consideradas independentes, atualmente classificada como Tarairiú. Os que viviam no litoral falavam línguas do tronco tupi e habitavam toda a costa litorânea que na atualidade se situa desde São Paulo até o Ceará. Os “guaranis” se situavam desde onde hoje se tem a costa paulista até o Rio Grande do Sul.

Esse povo tupi foi, segundo Oliveira e Freire (2006), os primeiros a terem contatos com os europeus, por viverem no litoral, também foram os primeiros a serem submetidos aos valores cristãos, aos códigos e linguagens do colonizador e à ruptura de seus aspectos culturais. Já os Tapuia, povos que eles denominavam de “bárbaros” e de língua de difícil compreensão, passaram por esse processo bem mais tarde, e de forma distinta. Putoni (2002) afirma que a política indigenista do índio do Nordeste foi totalmente diferente da dos povos Potiguara.

Sendo os Tapuia índios do interior; habitavam desde a margem oeste do Rio São Francisco, que agora é chamada de Bahia, até os sertões de vários outros estados nordestinos.

A pesquisa de Santos Júnior (2008) esclarece que a compreensão de que o Tapuia é uma denominação étnica, mesmo não sendo considerado etnônimo, é construída ao longo do século XVII, quando surge a noção de sertão como espaço imaginário. Foi um termo que recebeu várias grafias, desde a mais antiga à mais moderna: Tapuyos, Tapuhias, Tapuzas, Tapyyia, Tapuya, Tapuy ou Tapoyer, que hoje é Tapuia. Percebe-se que as diferenças que separam o “tupi” do “tapuia” parecem ser mais voltadas para o campo linguístico do que mesmo para o aspecto que demarca a identidade étnica no passado.

Mas, foi isso que determinou a presença do povo Tapuia aqui no sertão nordestino, lugar que Putoni (2002) define de forma muito clara como o País dos Tapuia. Isto porque todo o território do sertão era habitado por esses autóctones. Eles viviam de caça e mudavam frequentemente de lugar, procurando os melhores ambientes para a sobrevivência.
Os aspectos físicos também eram diferentes dos que tinham os outros índios brasileiros.

Os Tapuias possuíam semblante ameaçador, corriam iguais às feras, por isso eram muito temidos. Eram inconstantes, fáceis de serem levados a fazer o mal. Eram fortes, carregavam nos ombros grandes pesos. Ao irem para guerra, marchavam em silêncio, mas no embate faziam bastante alarido, jogando setas envenenadas das quais os feridos jamais escapavam (SILVA; PUFF, 2013, p. 1898).

Lopes (2003) complementa dizendo que são homens e mulheres de corpo robusto, de ossos fortes e cabeça grande, de cor da pele atrigueirada e cabelos pretos que parece-lhes trazer um boné na cabeça. Mas, eram vistos pelos colonizadores de forma mais fortemente animalizada do que os outros povos do Brasil.
Quanto aos costumes e culturas, Lopes (2003) descreve que o povo Tapuia seguia a mesma tradição dos demais indígenas das outras regiões do Brasil. “Todos, inclusive as crianças, costumavam pintar o corpo, utilizando-se de uma tinta preta, extraída do jenipapo, e vermelha, do urucu. Andavam nus, porém, com as genitais cobertas” (LOPES, 2003, p. 278). Eles também usavam enfeites com perfurações nas orelhas, nariz, bochechas e artefatos de penas de aves.
Segundo Macedo (2004), estudos contemporâneos indicam a existência de três grupos culturais distintos aqui no Nordeste, denominado o lugar dos Tapuia: os Cariri, os Tarairiu e os Jê, além de outros grupos isolados que não foram classificados.
Pode-se fazer relação bastante estreita das discriminações que são direcionadas ao nosso povo nordestino desde a colonização até a atualidade, como base nas origens coloniais. Putoni (2002) enfatiza que é muito pertinente registar e analisar o princípio que afeta todo o processo de divisão dos indígenas do Brasil, entre os das outras regiões e os do Nordeste. Segundo esse autor de um estudo sobre a Guerra dos Bárbaros, os Tapuia, não somente foram concebidos como selvagens por serem sertanejos e muito menos pelas características físicas e culturas que eram diferentes.

O ponto principal foi a RESISTÊNCIA às alianças com os europeus quando estes queriam ampliar os territórios para fins de exploração e os índios não aceitavam. A resistência desses autóctones teve como consequência o corte nas legislações e na política indigenista e os intensos massacres que mataram uma quantidade enorme de índios nos séculos XVII e XVIII.

De forma clara, Putoni (2002) cita que muitos Tupi se tornaram vassalos, eles aceitavam fácil o domínio português; os Tapuia resistiam e por isso estavam sujeitos a perseguições, massacres e fugas e mortes. A divisão indígena entre os Tupi e os Tapuia causou uma bipolaridade na legislação portuguesa: os índios de outras regiões eram coparticipantes do processo, enquanto a política destinada ao Tapuia era de crueldade e extermínio.

Não há dúvidas de que a barbárie ao povo nordestino não está encravada em marcos históricos recentes, mas, faz parte de um processo longo e cruel. A a luta por um lugar no espaço pelo nordestino é o que comprova a resistência de quem hoje se autoafirma como indígena do Nordeste, pois resistir faz parte do passado e do presente como forma de se dizer NÃO A BARBÁRIE desses povos!


Por Mônica Freitas



BIBLIOGRAFIA BÁSICA



FREITAS, M. M. Relatos sobre o massacre de 70 índios na serra de Portalegre/RN: argumentação em discursos de liderança indígena e alunos do ensino fundamental. Pau dos Ferros, 2018, 297 fls. Dissertação (Mestrado Profissional em Letras em rede nacional). Programa de Pós-Graduação em Letras, Campus Avançado Profª. Maria Elisa de Albuquerque Maia, Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. 

LOPES, F. M. Índios, colonos e missionários na colonização da Capitania do Rio Grande do Norte. Natal/RN: Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, 2003.

MACEDO, H. A. M. Vivências índias, mundos mestiços: relacionamentos interétncos na freguesia da gloriosa santa Ana do Seridó entre o final do século XVIII e início do século XX. Monografia (Conclusão do Curso de História). Caicó: UFRN, 2002.

OLIVEIRA; J. P.; FREIRE, C. A. R. A Presença Indígena na Formação do Brasil. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade; LACED/Museu Nacional, 2006.

OLIVEIRA, J. P. (org). A viagem de volta: etnicidade, política e reelaboração cultural no Nordeste indígena. 2 ed. Rio de Janeiro: Contra Capa – LACED, 2004.

PUNTONI, P. A Guerra dos bárbaros: povos indígenas e a colonização do sertão Nordeste do Brasil, 1650-1720. São Paulo: FAPESP, 2002.

SANTOS JÚNIOR, V. Os índios tapuias do Rio Grande do Norte: antepassados esquecidos. Mossoró/RN: UERN, 2008.

SILVA, M. J. M.; PUFF, F. R. Influências indígenas na cultura da região oeste do Rio Grande Do Norte e comunidades remanescentes. IX Congresso de Iniciação Científica do IFRN. Natal: Campus Central do IFRN. Período do evento: 05 e 06 de julho de 2013.

SOUZA, G. S. Tratado descritivo do Brasil em 1587. Salvador: Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro – CDPB (Impressão de 2013). Obra Original, 1587.



segunda-feira, 22 de outubro de 2018

[CRÔNICA] TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO


— Ele disse numa entrevista que fechava o Congresso no dia em que tomasse posse.
— Rapaz... Sou contra fechar o Congresso. Mas é melhor do que a roubalheira do PT.
— Ele também disse que tinha que matar 30 mil pro Brasil dar certo.
— Feio matar 30 mil. Mas é melhor do que a roubalheira do PT.
— Aqui ele fala que prefere filho morto a filho gay.
— Qualquer filho é melhor do que a roubalheira do PT.
— Sua frase não tem muito sentido.
— Melhor não ter muito sentido do que a roubalheira do PT.
— Aqui ele falando que é a favor da tortura.
— Sou contra tortura. Mas é melhor do que a roubalheira do PT.
— Será? Aqui, 2018, ele falando que o livro de cabeceira dele é do Brilhante Ustra, o torturador que levou duas crianças de 5 e 4 anos, pelas mãos, para verem o pai e a mãe torturados numa sala do DOI-Codi. A mãe estava nua e vomitada, presa à cadeira do dragão.
— Melhor levar criança pra ver pais torturados do que pra ver a roubalheira do PT.
— Frase da mãe torturada: “Minha filha perguntava: ‘Mãe, por que você ficou azul e o pai verde?” Ela continua: “Meu filho até hoje lembra do momento em que eu falava ‘Edson’ e ele olhava para mim e não sabia que eu era a mãe dele. Estava desfigurada”.
— E quem desfigurou o Brasil? A roubalheira do PT!
— Se só roubalheira conta... Ele tinha uma funcionária fantasma na Câmara, paga com dinheiro do povo para dar água aos cachorros dele, na casa de praia em Angra dos Reis.
— O que é uma funcionária fantasma perto da roubalheira do PT?
— Ele e os filhos, que se dedicam unicamente à política, têm 13 imóveis no valor de R$ 15 milhões de reais. Não é estranho?
— Muito mais estranho é a roubalheira do PT.
— Em um só ano, um dos filhos dele gastou R$ 40 mil reais de verba parlamentar com passagens pro Rio Grande do Sul, onde morava a namorada e para Santa Catarina, onde tem amigos.
— O importante é acabar com a roubalheira do PT. Tudo menos a roubalheira do PT!
— Não é o que acham os principais órgãos de imprensa do mundo. Olha essa lista de jornais e revistas alertando pro perigo desse cara ser eleito. The Economist, New York Times, The Guardian, Deutsche Welle.
— Tudo mídia comunista comprada com dinheiro da roubalheira do PT.
— Ué, por que a roubalheira do PT comprou toda a mídia internacional e se esqueceu da brasileira, que continua tratando o cara como um candidato normal e um risco à democracia igual ao de Haddad?
— Tática de guerrilha da roubalheira do PT. A mídia brasileira está como os vietcongs, escondida debaixo da terra, disfarçada de arbusto para atacar de surpresa no final e garantir a boquinha na roubalheira do PT.
— Sei. Mas vamos supor só por um momento que a imprensa global não esteja comprada pelo dinheiro da roubalheira do PT. Vamos supor que eles estejam certos em apontar o abismo que ele representa. Vamos supor que ele ganhe e ponha em prática o que vem dizendo que porá desde que começou na política. Vamos supor que ele persiga minorias ou faça vista grossa para quem perseguir. Que ele censure. Torture. Mate.
— Importante é acabar com a roubalheira do PT.
— E se for você o torturado? Você na cadeira do dragão.
— Enquanto eu tiver meu crânio esmagado pelo menos não vou pensar na roubalheira do PT.
— E se você for morto?
— Estarei livre, finalmente, da roubalheira do PT.
           
                                     Por Antônio Prata
                            Faculdade de Sao                                       Paulo
                             21 de outubro. 2018.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

[CRÔNICA] O MEDO





Primeiro é a sensação de estar sentindo o frio na barriga, os arrepios torturantes, a dor. Aí o suor aparece descendo na vereda mais aprofundada que fica ao meio das costas. Fechamos os olhos e na primeira brisa suave vai diminuindo os devaneios da mente. Mas, quando recai aquela alvoroçada percepção de que tudo pode ser real e que podemos não suportar, a brisa vira furacão e começamos a rodopiar pelos lugares mais atrapalhados. A repulsa só aumenta e o próximo passo é tentarmos fugir igual o diabo foge da cruz, como dizem alguns que veem o maligno em quase tudo.

Sozinhos, com visão de futuro escura, turva e inalterável, saímos de fininho, andamos mais depressa, corremos e até voamos nas asas da imaginação para não enfrentar situações que às vezes são muito fáceis de prever. Ajuda de santos, milagres, a presença do próprio Deus ou aquele fenômeno que também é inexplicável chamado de sorte são bem-vindos e sempre nos auxiliam dizendo: “Vá em frente!”. Aí a brisa suave volta com todo o seu frescor. Ganhamos vida, o sol reaparece e a chuva somente cai para regar as flores que precisam mostrar as cores de suas pétalas. E os jardins floridos, na maioria das vezes nos mostram como estávamos enganados.

Mas, nem sempre é possível contar espíritos do bem. Há os que vêm da luz profunda que queima almas. Quando o próprio dono das trevas resolve manifestar suas trevas e acalorar o temor, ele traz consigo uma bagagem atupetada de experiências que narram a história de sonhos desfeitos, de vidas ceifadas, de cortes profundos e de cicatrizes que envergonham. Ali não há milagres, não há santos, não há sorte e muito menos Deus. O que existe mesmo é o tom negativo da morbidez e do macabro sentimento que derruba vidas.

Aí fechamos o casulo do sonho, partimos para uma vida mundana, onde espalhar desesperança vai se configurando em metas diárias, horárias e instantâneas. É possível sentir que, ao sermos tomados por esse sentimento medonho, que quase sempre não podemos controlar, deixamos de ouvir na mesma medida em que falamos demais. Ele nos controla ao mesmo nível em que queremos controlar o outro e também fazê-lo discípulo do que é mais horroroso e temível intimamente, o nosso próprio medo.

Sentimos o medo como aquele ser versátil que pode nos manipular e ser manipulado a cada instante, para cada circunstância. O medo é um antídoto, às vezes. E tem como função, a preparação para o caos; mas, na iminência da glória, quando vencido, é a preparação para a vida em abundância.

Por Mônica Freitas


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

[HISTÓRIA] 12 MILHÕES DE AFRICANOS E AFRICANAS TRANSPORTADOS PARA AS AMÉRICAS A PARTIR DO SÉCULO XVI



Imagem da tela de Johann Moritz Rugendas, de 1830. 

Vira e mexe alguém volta com a teoria de que a escravidão não foi uma ideia dos ocidentais, mas sim dos próprios africanos. Nada mais covarde e perverso do que transformar a vítima em algoz. Vítimas, aliás, que sempre reagiram, e de inúmeras formas, ao cativeiro.

Na segunda-feira, dia 30 (agosto de 2018), em entrevista ao programa Roda Viva, foi a vez do presidenciável Jair Bolsonaro se sair com a seguinte frase: “se for ver a história realmente, os portugueses nem pisavam na África. Foram os próprios negros que entregavam os escravos (…) Faziam o tráfico, mas não caçavam os negros. Eram entregues pelos próprios negros”.

Craque na política do fake news, Bolsonaro contou a história que quis, não aquela encontrada nos documentos. Esqueceu de explicar, por exemplo, que a escravidão já estava presente na Europa. Desde a Antiguidade, o continente conheceu diversas formas de escravidão, mas menos intensas ou disseminadas do que aquela que surgiria a partir do século 16. A escravidão mercantil.

Por sinal, poucos povos deixaram de conviver com alguma forma de escravidão; a África também. No entanto, por lá, a instituição se desenvolveu paralelamente a sistemas de linhagem e de parentesco. Os escravizados não eram entendidos, pois, como “coisas” ou “propriedades”, nem tampouco considerados centrais para o funcionamento regular dessas sociedades.

Já o contato luso com a África Negra teve longa história, antecedendo em até meio século a descoberta do Brasil. Em 1455, Zurara, em sua “Crônica de Guiné”, descrevia atividades portuguesas na foz do rio Senegal.

Nessa época, o interesse luso estava voltado mais para o ouro, sendo que escravos, marfim e pimenta eram motivações secundárias. Foi com a introdução da cultura do açúcar que a história girou: os escravizados tornaram-se fundamentais na produção agrícola, o negócio tornou-se muito lucrativo e o interesse se voltou da pimenta para o tráfico de viventes com os portugueses entrando continente africano adentro.

Enquanto isso, já em meados do 16, Lisboa era a cidade europeia que mais possuía escravos africanos: contava com cerca de 100 mil habitantes, dos quais 10 mil eram cativos.

Em Cabo Verde, São Tomé e Madeira desenvolveram-se ao longo do 16 e do 17 verdadeiras sociedades luso-africanas, condicionadas pelo comércio transatlântico. Em 1582, cerca de 16 mil pessoas viviam nessas ilhas, sendo 87% formada por escravizados.

Por volta de 1520, portugueses mantinham número razoável de feitorias na África, controlando caravanas de cativos que vinham do baixo rio Zaire e do Benin. Dirigiam-se para São Tomé, e, a partir de 1570, voltaram-se para o rico mercado do Brasil.

A chegada dos portugueses à costa atlântica subsaariana no começo do 16 alteraria de forma radical as modalidades de comércio, tanto no que se refere à escala, como ao recurso crescente à violência. A nova conquista modificaria também modalidades internas de guerra e de redes de relacionamento no interior de estados africanos. Tudo com a interferência direta dos lusos, que “pisaram” firme no continente.

Com a cultura do açúcar, dentre os principais produtos do Império português, a situação se modificaria ainda mais, sobretudo a partir das relações estáveis com os congoleses. Naquele local, os portugueses destacaram-se por sua forte e estável presença, atuando no local como clérigos, traficantes e soldados.

Também a quantidade de almas humanas traficadas pelos portugueses cresceu e muito: enquanto na primeira metade do século 16 o volume de africanos entrados no Brasil não passava de algumas centenas anuais, registram-se 3.000 importações por ano já na década de 1580.

Teve papel fundamental a conquista de uma nova feitoria em Luanda, a qual, a partir de 1576, se transformaria em posto ativo nesse tipo de comércio. Por dois séculos os portugueses manteriam seus “pés” bem firmes em Luanda, na região do rio Cuanza e Benguela.

O certo é que, a essa altura, os lusitanos estavam bem familiarizados com as populações africanas que escravizavam. Além do mais, com o incremento do comércio do ouro e do marfim no Oeste da África, e o crescimento da atuação econômica portuguesa na Ásia, as relações foram ficando ainda mais corriqueiras.

Enfim, a eficácia crescente dos traficantes portugueses do Atlântico na oferta de mão de obra, na regularidade no suprimento de cativos vindos daquele continente e o declínio dos preços fizeram com que, para a Europa do século 16, os africanos se transformassem em sinônimo de mão de obra escrava e os portugueses em grandes especialistas na arte de traficar dentro e fora da África.

Foram transportados para as Américas 12 milhões de africanos e africanas durante todo o período do tráfico negreiro, sendo que, desse total, 4,9 milhões tiveram como destino final o Brasil.

O tráfico era um negócio complexo e dominado pelos portugueses, que acabaram promovendo inúmeras guerras e alterando a estrutura interna dos estados africanos com graves consequências atuais. Os lusos “pisaram” muito no território africano, e não há como tirar a responsabilidade de quem sabe que a tem.

Por Lilia Schwarchz


Lilia Schwarcz – Professora titular do Departamento de Antropologia da USP e global scholar na Universidade de Princeton (EUA), é curadora-adjunta para histórias e narrativas do Masp e organizadora, com Flavio Gomes, de “Dicionário da Escravidão e da Liberdade: 50 Textos Críticos (Companhia das Letras, 2018)

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

[CRÔNICA] DEUS ME LIVRE DE PEPINO ANTÔNIO!





Eu era criança. Anos de 1973-1974. Lembro do som fraco do rádio de pilhas, de marca Nordson que meu pai ligava toda madrugada. Um verso das músicas sertanejas-caipiras que nunca esqueço era cantando quase falado, num grito da dupla sertaneja Jacó e Jacozinho:
__ Deus me livre de pepino Antônio!.
Esse gritinho era dado logo após uma repetição negativa:

Eu não quero mais pepino,
eu não quero mais pepino.

Parecendo uma comediazinha musical, eu achava engraçada aquela toada. E sempre acordava para ouvi-la. Acho que naquele momento fazia um sucesso danado! E o meu pai, sempre foi muito apreciador de músicas e do rádio. Quem o conhece, sabe. O violão e o cavaquinho ainda são seus companheiros, mesmo ao patamar dos 80 anos.
Pois bem! Mas, essa lembrança de um verso musical dos anos de 1970 não me remete apenas à graça que ele tinha e nem do bis no refrão da peça. É que a letra narra a história de um agricultor que queria plantar melancia porque o preço estava bom; arou a terra, comprou a semente, mas, quando a plantou, só nasceu pé de pepino. Foi enganado pelo vendedor da semente. Perdeu o plantio e ainda enjoou o pepino por dois motivos, de tanto que deu e não vender porque não tinha um preço bom. Claro, o produto acumulou.
Mas, depois de certo tempo, depois de várias leituras e análises sobre o contexto da época, descobri que a tal letra, nada mais era do que a paródia da vida real. Coisas que eu, de pouca idade e leitura, muito criança ainda, não compreendia. Embora vivesse os fatos: a miséria, a fome, a necessidade, a falta de moradia e vidas digna. Chegando ao ponto de ver irmãos meus morrerem, por motivos que só depois descobri, nas aulas de ciências, que se ligavam àquela miséria, causada pelo abandono dos governos da época.  
Nós morávamos em uma casa de taipa. No início era que só o telhado, porque ia sendo feita aos poucos: colocava-se a madeira de sustentação do teto, depois pregavam-se as varas, e por fim, tapava-se com barro. Nós, começamos a morar na casa antes de tapar. Nessa condição, a madrugada também era sinônimo de frio e medo. Se não fosse o radinho de pilha e as músicas tocadas no programa sertanejo do Zé Béttio, o momento era só de medo e frio mesmo.
Eram eu e meus irmãos outros irmãos, naquele momento quatro: eu, Vilma, Patrício e Raimundo. Uma irmãzinha já havia ido embora como anjo, aos seis meses de vida. Foi diarreia, mas a minha mãe dizia que tinha sido “quebranto”. Nunca a questionei, não nessa época. O intrigante é que as condições da nossa alimentação eram muito duvidosas quanto a ingerirmos o suficiente em nutrientes que realmente fossem adequados a uma vida saudável.
Nós tínhamos que suportar a ideia do amanhecer e não ter o quebra-jejum. No almoço, o cardápio repetido do feijão, óleo e farinha. Quando tinha a farinha. Isso tudo, ao que parece, na minha interpretação atual, pela mesma falta de “sorte” que era relatada na música da dupla que dizia:

Eu não quero mais pepino,
eu não quero mais pepino.

 Uma “falta de sorte” que só os coronéis do mandonismo e clientelismo simpático sabiam, pelo preço por cabeça. Sim. Votos que eram contados por cabeças. Depois esse tipo de domínio político adquiriu um nome próprio. Mas, ei nem vou dizê-lo, tenho certeza que muita gente sabe. Talvez não admita, mas, sabe.
Aliás, admitir os fatos mais tenebrosos dessa época é algo realmente difícil. Não sei se há memórias diferentes da minha, que não faltou caixinhas para guardar cada detalhe e trazer comigo até hoje as mais terríveis experiências de forme da infância. Nem vou enumerar, são muitas, e tristes. Mas, eu uso-as como lição na minha vida diária. Em especial para observar fatos que se relacionam com a história do país e os seus reflexos na vida do povo. Só sei que muitas das minhas amiguinhas da época, parecem ter esquecido. Ou lavado a mente, tanto quanto a alma. Eu não.
Minhas lágrimas ainda escorrem quando lembro dos copos de água que tomava para encher o estômago e aguentar até 11:30 sem comer. Hora que terminava as atividades da escola, lugar onde aprendi quase tudo da vida. Em casa eu só aprendi a gostar de ler, com minha avó analfabeta. Ela costumava narrar histórias oralmente para mim, e eu as descobri depois impressas nos livros. Nunca virei bruxa má, nem feiticeiro do pé grande, nem meu nariz cresceu e nem me iludi com sapatinhos de cristal. Essas histórias me ensinaram outros valores, apesar de nos seus enredos constarem toda atitude originada de sentimentos ruins: inveja, maldade, crueldade. Basta citar a Branca de Neve para compreender.
Mas, nesse tempo, o fato que mais me chamou atenção na minha casa foi a morte de Raimundo, um dos meus irmãos que não resistiram às mazelas de um tempo que hoje é desejado por muitos. Ele tinha mais de uma no, quase dois. Já andava e tudo. Mas, o tal do “quebranto” o fisgou. Passei dias tristes porque ele era um menino que eu ajudava a cuidar. Naquele tempo, as meninas começavam cedo a ajudar a mãe. Até hoje eu acho que esse era um costume que não devia ter acabado. Aquele quebranto matou meu irmão. E eu até hoje lembro do seu rosto.
Ficamos três novamente. Em 1974, nasce mais um irmão e pronto. A conta se encerra. Mas ele nasceu prematuro, de sete meses. Minha mãe, até hoje diz que foi porque ela presenciou uma briga e teve um “vexame”. Hoje em dia dizem por aí que é porque quando a mulher não cuida dos dentes, tem muita cárie, aí o bebê pode nascer antes do tempo. Já eu, pela bagagem de conhecimento que adquiri posteriormente, duvido muito que tenha sido por isso. Acredito que a fome, as condições alimentares, a falta de um sistema de saúde mais adequado à mulher gestante naquela época tenha sido a causa. Mas, eu sei que isso pode ser contestado, porque tem gente que tem certeza que os conhecimentos científicos foram desconstruídos. Vejo mesmo que alguns foram mudados para beneficiar os salvadores da pátria que dizem estar em falência.
Realmente não está bom. Olhar o nosso tempo e ver que as suas experiências, os fatos da sua memória, o que você viveu e as lições que aprendeu, e até o tempo que você já viveu não podem ser considerados como exemplo, nem para seus filhos, não é um tempo bom. Quando a verdade é evitada de ser ouvida para se dá credibilidade a projetos no escuro, não é um tempo bom. Nesse formato, é um tempo que fere, muito mais por dentro do que por fora. Muito mais do que muitos nem imaginam quando nem olham ao seu redor e somente se importam em atacar para “ganhar”, nem sei o que.
 Vivemos um tempo sombrio, de farpas, de excessiva competição pelo poder, de discursos que muito mais ferem do que esclarecem, de sede de morte, de tortura e de sangue. De obsessiva busca pela demonstração de superioridade, de ser melhor, mais correto, mais moralista e de estranha polarização por um lugar no céu, seja este material ou espiritual, tenho certeza: no terceiro dia de feijão, óleo e farinha, a frase “eu não quero mais pepino” vai ser repetida dezenas de vezes e não será no refrão de uma música.
Essa possibilidade é o que me faz continuar com o gritinho de Jacó e Jacozinho:

__ Deus me livre de pepino Antônio!

Mônica Freitas

sábado, 22 de setembro de 2018

[CRÔNICA DO DIA] O CANSAÇO



Imagem ilustrativa

Um conhecido me encontra na rua e pergunta:
__ E aí, como vão as coisas?
Acostumada em saber que as coisas sou eu mesma, respondo:
__ Bem, tudo bem!
No trabalho, todos os dias escuto a mesma pergunta. A resposta é sempre a mesma. Às vezes, automática, sem sentido, apenas para cumprir a convenção do “pergunta e responde”. Uma forma de lançar uma lona preta no corpo que está estendido ao chão, morto pelo cansaço.
Aliás, esse tal cansaço é o mais dissimulado, hipócrita, divagador e peralta entre tantos fenômenos que o mundo dispensa à humanidade. Ele está sempre ali. Às vezes invisível, às vezes sombra e às vezes bem óbvio. E neste último caso, rir da cara de todos, faz chacota, dispara horrores. Mata até as palavras que dão vida. É um poderoso antídoto contra a paz interior. Além de efervescer multidões quando se fala de expulsar o que está dentro para fora.
Nestes tempos de hipocrisia, mentiras, espertezas e propagação da ganancia pelo poder, ele (o cansaço), esbagaça o discurso do mais astuto duende da linguagem. Ele se transforma em um soberbo gigante do pé grande, igual os que atuavam como feiticeiros nos contos maravilhosos. Quando chega em lugares de gente menor, só um “pisão” mata milhares de vozes.
Mesmo que em meio àquela multidão haja um mágico ou uma fada madrinha, a cena que se consegue visualizar é do minúsculo ser humano sendo apertado por cinco dedos de um gigante mau.
Às vezes eu vejo uma serpente falando com Eva e Adão.
O Cansaço é também um Anticristo. Ele confronta todas e até outras bem-aventuranças do Pai, do Filho e do Espírito. Troca amor por ódio, vida por morte, paz por guerra, PERDÃO por CONDENAÇÃO. Cristo muda seu percurso inteiro. Nem teve vida e nem morte. E o que é do céu muda de lugar.
Só que ninguém nota. A lona escura que o encobre torna o produto da sua alma imperceptível. Como disse, é dissimulado. E sua função principal é cansar a todos, até conseguir a façanha de enobrecer e fazer permanecer a razão do mundo.
Sou e tenho como certo que serei sempre sua presa. Embora tenha conseguido fugir de algumas de suas investidas, em silêncio.  Falar, às vezes não adianta. A voz fica rouca, quase nem se escuta. E a voz dele é estridente, arrogante, profunda, conforme seus objetivos; portanto, metamórfica. E sendo assim, muito compreensivo perceber os que o seguem, muito bem cansados.
Até aqui vou fugindo dele. Estou escondida em meio a um arsenal de símbolos que não me protegem, antes me atiçam. Os cutucões quentes que perfuram até a alma, os gritos que confundem, as imagens que estarrecem e a crônica diária que vai sendo contada pela natureza das coisas, de vez em quando me chama, pede socorro. Eu apenas olho, penso no cansaço e me calo. É que ficar imóvel e em silêncio evita-o.
A preguiça, nesse sentido, é muito melhor. Passa voando, não se prende ao chão e ajuda a fugir do pé do gigante, é mais saudável e benéfica, salva a vida.
Depois de um olhar e um sorriso sem gosto lançado ao conhecido, sigo em frente respondendo todas as outras perguntas que vão sendo enunciadas pelos demais, com aquele famoso e dissimulado:
__ Bem, tudo bem!
E em casa, durmo. 

Por Mônica Freitas