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quarta-feira, 22 de abril de 2020

Esconder é melhor!?


Imagem disponível em: https://blogdescalada.com

Não é só no Brasil. Igual à pandemia de Covid-19, acontece em todo o planeta Terra, desde os primórdios. Aqueles que têm mais acesso à informação, como forma de manter o seu domínio sobre os demais, tentam esconder o que sabem, as realidades, os detalhes de uma determinada situação, conhecimento, fato, saber. Em outras palavras, tenta-se, a todo custo, esconder aquilo que chamamos de "verdade" quando sabe-se que esta pode provocar algo que não satisfaz, às vezes, as intenções e necessidades de grupos privilegiados. 

Linguisticamente falando, o termo utilizado para identificar tal prática é o "obscurantismo", através do qual, de forma intencional, faz-se de tudo para impedir que os fatos ou os detalhes de algum assunto se tornem conhecidos. Ou seja, aquela sujeira que não pode ser conhecida por todo mundo, é escondida debaixo do tapete. Outro detalhe da prática são os grupos que costumam adotá-la. Historicamente tem sido observada no modus operandi de muitos politicos, sem discriminação de ideologia ou partido. Mas, principalmente quando estão em suas campanhas eleitorais e mais ainda quando ocupam uma cadeira no poder.

As práticas mais comuns são: esconder do povo a real situação econômica do país - e todos já sabem para que -, não distribuir de forma ampla as condições para que toda a população tenha acesso ao conhecimento acumulado pela humanidade nao investindo em educação de qualidade e além disso espalha um discurso de desvalorização e ofensa aos professores, tentar impor uma religião ou seita religiosa, a fim de, por meio da exploração da "fé" possa ludibriar com conceitos muito mais voltados para o mal da própria pessoa quanto para o bem. 

E ainda, a repulsa pela ciência é um das concepções ideológicas mais disseminadas por políticos que praticam o obscurantismo, e com isso têm como fim se autopromover enquanto figura histórica, ao mesmo tempo em que se aproveita do cargo para enriquecimento ilícito e distribuir privilégios com seus associados, na maioria das vezes usando o próprio povo, que sem conhecimento porque não tem acesso a este, se aliena na ideologia daqueles que respeita como líderes. 

Mas, o que nos desperta mais atenção é perceber que, em pleno século XXI, quando a ciência já permitiu ao ser humano fazer descobertas fantásticas, quando se tem provas muito reais disso nas áreas da Biologia, da Química, da Matemática, da Física, nas Linguagens e na Tecnologia e todas, sem excessão têm base em reflexões que não se descarta o pensamento filosófico, ainda há quem acredite em quem a nega. E essas práticas são muito visíveis na mente das pessoas, ganham corpo em meio à população de diversos países, às vezes por motivos distintos, dependendo de cada realidade. 

Há países que o povo também sabe por qual motivo a prática é adotada. Em especial quando o país quer se tornar potência mundial. Ter outras nações subjugadas aos seus moldes, neste caso, é um avanço. Maquiavélico, ganancioso, pretencioso, intrépido, mas, com um objetivo nacional. Em outros casos, o subordinado que pensa no seu alcance individual ou apenas no do seu grupo, sacrifica um país inteiro às práticas de colecionar erros e empurrá-los para debaixo do tapete.

Não é difícil perceber que em nosso meio, o obscurantismo está na moda e, considerando que o povo gosta de modismos, nao saber História, Geografia, não comnsiderar os conhecimentos da ciência ou não ter conehcimentos de qualquer outra área e defender a corrupção da Lei - dependendo de qual político ou partido você está defendendo - também é moda. Dá vez, muito mais à emoção, falando e escrevendo sem pensar, exaltando a própria vontade, que tem base e enxerga apenas pouco espaço após a ponta do nariz, nos dias de hoje, tem levado muita gente a adotar práticas dessa moda. 

Na minha visão, o tal do "opinar de forma politicamente INCORRETA", só para não se mostrar "politicamente CORRETO", como se errar fosse uma vantagem grande tem virado pauta para muitos buscarem ascensão nas redes sociais, espaço fértil para o plantio de qualquer erva, seja boa ou daninha. E isto não é por acaso, a maioria dos que fazem estão sendo levados por uma onda IDEOLÓGICA perigosa que não se sabe medir até onde nos levará. Esta é a pior parte, porque todos nós acabamos nos envolvendo, uma hora ou outra nos resultados dessa também "pandemia". 

Vê-se tudo isso com relação à COVID-19. 

Temos à nossa frente ou atrás, do nosso lado esquerdo ou direito, uma doença provocada por um vírus que, infelizmente, a ciência, que trabalha com critérios metodológicos, ainda náo tem respostas sobre a mesma. Até aqui (tenho lido a literatura científica sobre), o que se sabe é: uma doença causada por vírus, o Coronavírus, o mesmo da gripe, mas numa versão que pssou por multação, de contágio rápido em grande escala em pouco tempo e com uma letalidade superior a todos os outros de sua mesma espécie.  Não há medicamentos específicos para a sua cura e nem vacina. Só estudos em andamento. 

É uma patologia ainda em estudo, sem muitos resultados positivos com relação ao controle, está no mundo inteiro, não é só no Brasil, o que permite usar o termo "pandemia" para a sua intensa presença na Terra. O Ocidente e o Oriente estão em completa vigilância e a ciência trabalhando. A única certeza é que, isolar-se, evitar "ajuntamento de gente" é uma forma de evitar a sua expansão. 

No mundo todo já matou milhares de pessoas. Os números atuais são de 2.486.964 (dois milhões, quatrocentos e oitenta e seis mil e nocentos e sessenta e quatro) pessoas infectadas; são 170.507 (cento e setenta mil e quinhentos e sete) mortos. Pessoas que conseguiram, provalvelmente por causa de sua situação imunológica (não porque tomou um remédio) serem curadas somam 653.798 (seissentos e cinquenta e três mil e setecentos e noventa e oito). Mas, não se tem conhecimento, ainda, se estão imunizadas, como é mais comum acontecer nas doenças causadas por vírus. 

No Brasil, as mortes beiram o número de  3.000 (três mil), são 2.741 (dois mil setecentos e quarenta e um) mortos por covid-19 de 43.079 (quarenta e três mil e setenta e nove) casos confirmados. Situações preocupantes sobre a doença em alguns estados, como Amazonas, mais especificamente na capital Manaus, em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Ceará, por enquanto. Esperamos que não piore e que não se expanda para outras unidades da federação. 

Mesmo assim, com tantas pessoas que, seguramente, não teriam morrido se não fosse a chegada da doença, há quem prefira enveredar pelo tal OBSCURANTISMO, negando os estudos científicos, os resultados e os não-resultados obtidos. E o pior, a maioria absoluta dessas pessoas que negam tais evidências científicas se encaixam muito bem no caráter vergonhoso da expressão tão desonesta quanto corruputa do "esconder é melhor", com evidências publicizadas em discursos de políticos que estão no poder. Claro, com intenções nada boas com relação ao cuidado que um governante deve ter com o povo da nação. 

Não se trata de negar a importância de cuidados às necessidades básicas do cidadão: o trabalho e a segurança alimentar, que são usados como argumentos para negar a necessidade de o povo ficar em casa quando puder, isto é, cumprir o ISOLAMENTO SOCIAL como única forma de conbater o ataque violento do Corona Vírus. Nunca ouvi de ninguém da área de saúde ou cientista dizer que todo mundo tem de ficar trancado em casa por meses, sem trabalhar e sem comer. Até porque a própria ciência tem a explicação para o resultado CATASTRÓFICO desta atitude. Mas, a ciência e as experiências óbvias vividas por cada um de nós também comprova que gente doente e morta não trabalha, o que seria também outra catástrofe. 

Conclui-se que, dependendo da realidade de cada indívíduo, o isolamento social é a medida mais correta: não ir para a rua sem necessidade, não abraçar, beijar ou ficar perto das pessoas porque há evidências de poder se contaminar e ter HIGIENE MÁXIMA com as mãos, a roupa, o corpo, com a comida, a bebida e buscar quais são os estudos mais recentes que a ciência disponibiliza, para se ter conhecimento sobre  a doença. Tudo isso é atitude que faz parte da defesa pessoal de cada um de nós e que não é Decrteto de governo que garante, mas a consciência individual que acaba por atingir o social. 

De forma alguma, esconder é o melhor!

Por Mônica Freitas




Em quem você confiaria mais: Luiz XIV ou Bolsonaro?


Ilustração na postagem no Facebook do professor. 


A análise é do professor DR. SEVERINO CABRAL FILHO, que escreve: 


Entre "a constituição sou eu", de Jair Bolsonaro, e "o Estado sou eu", de Luís XIV (1638-1715; reinou de 1643 a 1715), há diferenças de vários níveis. Discorrer sobre os dois personagens em seus devidos contextos históricos deixaria essa postagem demasiadamente longa, mas quero deixar claro que não há registro histórico que comprove que Luís XIV tenha proferido a famosa frase. Tentarei ser sintético.
Nós, brasileiros, fazemos piada de tudo. E muitos de nós aproveitamos essa 'deixa' para associar os devaneios imperiais de Bolsonaro com a experiência histórica do Absolutismo francês sob Luís XIV.

Mas não se deve brincar com a História. Não há como comparar Bolsonaro a Luís XIV a não ser como piada de mau gosto.

Luís é tido e havido pelos historiadores como o arquétipo do rei absolutista: esclarecido; amante da guerra e das artes: guerreiro e bailarino ao mesmo tempo; hábil administrador e estrategista. Muito vaidoso (quem não seria em sua posição?), mas também político habilidoso, o "rei Sol" foi o primeiro monarca moderno a ordenar a construção de sua imagem pública usando para tanto todos os meios midiáticos e artísticos disponíveis em seu tempo - no que foi imitado pelos seus rivais na Europa e fora dela -, conforme o excelente livro "A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luís XIV", do historiador Peter Burke.

Luís elevou a França, suas riquezas, sua educação, sua arte, sua cultura, as relações entre Estado e sociedade; mandou edificar obras eternas, verdadeiros patrimônios culturais do Mundo (basta citar o Palácio de Versailles como referência); um mestre na auto propaganda. Como era ainda comum à época, Luís XIV massacrou impiedosamente os seus inimigos. No entanto, Luís XIV não podia tudo, como às vezes deixa transparecer a ideia de "rei absolutista".

Perry Anderson, um dos mais destacados historiadores do século XX, escreveu "Linhagens do Estado Absolutista", livro que é considerado pela crítica historiográfica uma das melhores obras acerca do absolutismo ocidental. Aqui, Anderson apresenta, cristalinamente, quais os limites do Absolutismo e, portanto, do rei absolutista: "A monarquia absoluta no Ocidente esteve sempre, de fato, duplamente limitada: pela persistência de corpos políticos tradicionais abaixo dela e pela presença de um direito arqui-moral acima dela", ou seja, as cortes (ou os parlamentos) e o sistema de justiça à época impediam que a vontade absoluta, pessoal, do rei, desconsiderando os interesses do Estado, se realizasse em detrimento da sociedade. Trata-se, pois, de um absolutismo mais retórico que real.

Vamos a Jair Bolsonaro. Militar de carreira, chegou à patente de capitão do Exército brasileiro, de cuja força foi convidado a se retirar por "práticas incompatíveis com a honra militar" (essa é uma das razões mais recorrentemente lembradas, de acordo com o seu rumoroso processo de expulsão da Força onde, por razões pouco claras, o capitão, ao invés de ser expulso, acabou sendo compulsoriamente reformado). 

Um mau militar, de acordo com a avaliação insuspeita do ex-presidente da República General de Exército Ernesto Geisel.

Um deputado federal que, em quase três décadas de sucessivos mandatos, jamais fez ou propôs algo relevante para o País. Baixíssimo clero, uma piada entre os seus pares.
Foi eleito presidente da República numa circunstância completamente atípica (pano para mangas de muitas dissertações e teses).

Defende, abertamente, a tortura e os torturadores. Sugeriu uma ditadura que matasse pelo menos 30 mil brasileiros. É alucinado por armas de fogo.

Tem feito uma "gestão" do Estado brasileiro cuja política externa está completamente submetida aos interesses dos EUA sem qualquer contrapartida, sem que se observe o princípio da reciprocidade entre as nações, como sugerem as boas práticas diplomáticas contemporâneas.

Incapaz de um discurso articulado, manifesta-se, prioritariamente, por meio de redes sociais, onde é apoiado por pessoas reais, zumbis e robôs. Odeia a crítica de qualquer matiz. Não é um homem confiável; os seus apoiadores de primeira hora e que se viram defenestrados do seu governo e de suas relações que o digam.

Despreza a ciência e os cientistas, com quem briga quase todos os dias. Nutre um ódio indisfarçável pela universidade pública. Nutre um ódio indisfarçável pelo conhecimento. É homofóbico, já revelou-se racista e misógino. Há indícios de fortes ligações suas e dos seus filhos com as milícias do Rio de Janeiro.

Agora, durante a pandemia do Coronavírus, tal qual um genocida, coloca a população brasileira sob grande risco ao desprezar as práticas preventivas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde; práticas adotadas por quase todos os governantes da Terra.

Ele rebela-se contra os poderes constitucionais. Declara guerra diária ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal.

Sim, Bolsonaro proferiu a frase "a constituição sou eu". Uma lástima!


Dr. Severino Cabral Filho - Universidade Federal de Campina Grande(UFCG)

segunda-feira, 23 de março de 2020

OS PARABÉNS DOS PAIACU À TERRA DOS TAPUIA PAIACU




Hoje Apodi completa seus 185 anos. O momento não permite uma festa aglomerada de gente, nem um bolo gigante para ser dividido com o seu povo, que carrega na sua cultura linguística, alimentar e em alguns costumes diários atitudes, crenças, modos de vida que, mesmo inconscientemente vividos e disseminados têm origem na intercalação do processo cultural entre o branco e o indígena. No entanto, nessa cultura, por mais que seja negado, prevalece fortemente impregnado o aspecto do culto indígena, em especial nas atividades agrícolas, em que o cultivo de produtos originários das vivências Tapuia Paiacu.

É inegável o quanto a carga cultural da etnia que vivia na aldeia às margens do Rio Pody e da Lagoa Itaú no século XVII, em sua forma originária e, que ainda prevalece na sua ascendência atual influencia os discursos no meio social e político. Não obstante às atitudes de negação da existência do povo é comum ouvir de prefeitos, vereadores e demais políticos e gorvernantes, constantemente a frase: “APODI, TERRA DOS TAPUIAS PAIACUS”.

Apesar do processo de aldeamento em Portalegre, quando grande parte do povo Paiacu foi levado àquela serra por volta de 1760, é importante que saibamos que uma boa parte de índios permaneceu trabalhando na Paróquia, fundada pela Missão de São João Batista e em casas de famílias. Houve também casamentos de índias com brancos, o que jamais elimina por completo a genealogia descendente da referida etnia. E é isto que garante a permanência da ideia de que estamos sim situados na “Terra dos Tapuia Paiacu”.

Além do mais, Apodi surge a partir da Aldeia Paiacu, situada às margens da Lagoa do Apodi  - nome atual – basta olharmos a localização da Igreja Matriz, das construções antigas que formaram o Centro da Cidade, a antiga feira e tudo que foi historicamente construído muito próximo das margens da lagoa, onde estava situada a taba indígena, com diversas palhoças (casas de Paiacu).  

É bem verdade que até pouco tempo não tínhamos nenhuma análise mais profunda sobre essas informações porque o homem que se diz “branco” descendente de europeu e detentor do domínio político foi quem se encarregou, estritamente de contar a história. Apodi, ouviu e divulgou alardeadamente a história das famílias brancas. Ninguém, quase nunca se deu conta de que nossa população é mais parda do que branca; de que nosso povo é culturalmente voltado para costumes e devoções que misturam fortemente a superstição xamã às crenças cristãs. E também não tivemos uma análise mais aprofundada de que tudo isso foi feito em cumprimento ao que se pensou fazer com base na ideia de que era possível “embranquecer a sociedade”.

Enfim, Apodi chega ao momento de sua emancipação em 1833, quando esta foi requerida e a sua confirmação em 23 de março de 1935, com a carga do silenciamento ocorrido pelo massacre de 1825 na Serra de Portalegre quando foram mortos dezenas de índios de uma só vez em um fuzilamento sangrento e covarde, com famílias indígenas em quarentena (a palavra da moda no momento), em suas casas, para que nunca mais saíssem ao convívio social, mesmo sabendo de sua identidade.

É novidade, porém é aceitável historicamente, basta pesquisarmos os diversos estudos que indicam a prevalência de indígenas em toda a nossa região: o povo Paiacu ainda existe, não foi eliminado, as suas raízes estão vivas, até no discurso popular. O assunto vem à tona a partir de 2013, quanto o Centro Histórico Cultural Tapuias Paiacu da Lagoa do Apodi (CHCTPLA) foi fundado por Lúcia Paiacu Tabajara (nome oficializado a partir de análise jurídica da Comarca de Apodi), hoje liderança do povo Paiacu do Apodi, grupo reconhecido pela FUNAI como uma das comunidades indígenas do Rio Grande do Norte, estado que teve negação da existência de povos indígenas até o ano de 2005, quando estudos realizados por antropólogos abriram espaços para uma nova compreensão sobre esta temática.

O CHCTPLA, formado estritamente por pessoas que têm relato de pertencimento ao povo Paiacu, vem desejar parabéns à nossa cidade, ao nosso lugar de origem, congratular a sua emancipação política, mas, sem esquecer que é POLITICAMENTE que tendemos a ser NEGADOS. Sim, pois, apesar da frase “Terra dos Tapuias Paiacus”, saída tantas vezes das bocas de governantes, famílias que compõem esta entidade são olhadas atravessadas, com desconfiança e com a propagação de pensamentos que contrariam a preservação identitária, étnica e cultural.

Estamos no processo de construção de um museu, hoje situado em prédio que até bem pouco tempo era abandonado, mas, pertencente ao PODER PÚBLICO ESTADUAL. A sua reforma para a transformação no Museu Luiza Cantofa tem sido lenta, pela falta de recursos, pois o povo associado à entidade é de família pobre – sim, as famílias Paiacu de Apodi, desde o início, permaneceram pobres – e isso faz com que tudo se torne muito difícil. Ultimamente, a única ajuda recebida é de um voluntário, também descendente  do povo Paiacu que reside fora do Brasil, um empresário que conseguiu o sucesso empresarial e hoje auxilia com doações para a reforma do prédio, juntamente com outras pessoas de Apodi, que também contribuem para que um dia possamos ter um lugar para expor nossa história.

Enquanto isso não ocorre, estamos aqui, torcendo por nosso lugar de origem, mas, conscientemente relembrando que a “Terra dos Tapuias Paiacus” não é apenas uma frase que serve de recurso estilístico ao discurso. Há mais verdade nisso do que o enfeite.

PARABÉNS MEU APODI, PELOS 185 ANOS.

Por Mônica Freitas 



domingo, 5 de janeiro de 2020

Crônica

Já rasgaram tanto a Constituição, mas tanto, que não tem mais o que rasgar. Virou pó. A metáfora perdeu a validade, por desgaste natural. 

E na falta da possibilidade de continuar rasgando a Constituição, rasga-se livros. Esse "montão de amontoados" de palavras inúteis que só servem para torrar os nossos neurônios. 

Rasga-se o Código Penal, rasga-se a CLT, rasga-se o manual básico de jornalismo, rasga-se o contrato social que não pode rasgado porque nem está em papel. 

O mundo anda rasgando muita coisa por aí também. A ONU praticamente foi jogada em um fragmentador de papel. Tudo o que eles dizem e publicam não se escreve. Se escreverem, ato contínuo, rasga-se. 

Vivemos a era do rasgação. Rasga-se as famílias, rasga-se a tolerância, rasga-se o respeito, rasga-se a possibilidade de sonhar. 

Metáfora de si mesma, a palavra 'rasgar' debuta como estrela de cinema em nossa surrada cadeia significante. 

"Chega rasgando", diz o coach para seu pupilo que busca o primeiro milhão e sua frio porque vai se reunir com o CEO da empresa. 

Tem o assessor de politico também que vive "rasgando a seda" do patrão. É pago para isso.

Aliás, eu trocaria fácil "rasgar a seda de patrão", por "rasgar o patrão". Essa tradição brasileira poderia ser corrigida não fosse a maldita palavra "seda".

Mas patrão, o brasileiro não rasga. Brasileiro gosta de patrão. Acha que o patrão é uma pessoa de sucesso que paga o seu salário.

O Brasil tinha que rasgar com essa tradição de subserviência explícita. Rasgar o 'dotô', rasgar a concentração de renda pornográfica, rasgar a Rede Globo que vive rasgando a verdade e o nosso cérebro.

Mas aqui, nesta terra que não é do nunca, mas é do "sempre", rasgar os próprio direitos é que é gostoso. Sem Previdência Social? Viva! Sem direitos trabalhistas? Show! Sem direito a um judiciário digno do nome? É nóis!

Rasgar é o maior barato. Quem nunca rasgou a fantasia? Saltou nas tamancas? Caiu dentro?

Festas populares também são boas para sair "rasgando" por aí.

No carnaval, veremos o país inteiro gritar "Fora, Bolsonaro" para na quarta-feira de cinzas, todos voltarem a trabalhar resignados, pagando seus impostos com gosto, rasgando e jogando no lixo a própria indignação que, afinal, foi apenas para dar o clima da festa.

Quem paga imposto, aliás, é o brasileiro pobre, claro, porque o brasileiro rico rasga seu prontuário do imposto de renda (ou frauda, com despesas de dentista e dependentes que não existem).

É uma rasgação geral. Por isso, foi tão fácil rasgar a Constituição.

No Brasil, a arte de rasgar vai bem, obrigado. Brasileiro gosta de verbos insinuantes, 'tripudiar', 'intimidar', 'sacanear'. Nada de 'respeitar', essa coisa chata e sem sal.

'Rasgar' tem cifras tensivas sedutoras, lascivas, cadenciadas. É um ato subversivo, mas desacelerado: não se 'corta', se rasga. Separa-se duas partes de um todo, mas de maneira quase sádica, saboreando o processo.

'Rasgar' também pressupõe a presença das 'mãos', metáfora máxima da ação humana. Quando se rasga a Constituição, não se a despreza ou a ignora, pura e simplesmente: trava-se uma relação passional com ela, dolorosa, ambígua, contínua, com revestimentos de ódio e despeito.

Não à toa este sentido estava presente de maneira literal em nosso destino histórico: rasgou-se o abdome do político que mais representa a ruptura cortante com todo e qualquer valor civilizatório sofregamente já costurado no tecido social do Brasil.

Rasgou-se a civilização.

O Brasil virou um fiapo, um amontoado de estopa pronto a dar brilho nos carros milionários de nossa elite reluzente que foi quem mais lucrou com tudo isso. É só passar a cera do nosso jornalismo branco que o brilho virá.

Não à toa, "passar o pano" também se tornou outra metáfora largamente usada nas codificações públicas de turno. É preciso limpar a sujeira deixada diariamente por nossos governantes. O jornalismo está cumprindo abnegadamente este papel, papel que tento em vão rasgar todos os dias nessas intermináveis crônicas de costumes.

Diante de tudo isso, o brasileiro só não rasga dinheiro porque o dinheiro acabou. E porque se rasgasse dinheiro, poderia ser confundido com um louco - o que seria um avanço fora de lugar dadas as atuais circunstâncias.

Só me resta pedir desculpas a você, querido leitor, por não poder rasgar esta crônica, já que ela é digital. Posso sugerir no entanto, que a imprima. Assim, poderá rasgá-la com todo amor e degustar devidamente o fecho trágico desses dez minutos de leitura pelos quais inadvertidamente passou.

Só não rasquem a seda de quem quer que seja, por favor. Sedas ainda são úteis no mercado do esquecimento.

(Via página Gustavo Conde/Facebook)

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

[MINHA CRÔNICA DE HOJE] QUANDO ENTRAR SETEMBRO...



Durante todo o mês de agosto do ano de 2019 esteve fixa na minha mente esta sentença: QUANDO ENTRAR SETEMBRO. A fixação na memória me lembrava o trecho de uma composição do Beto Guedes, artista brasileiro que gravou essa letra na música intitulada “Sol de Primavera”. Uma letra arranjada em melodia que exalta a chegada das flores, a primavera, como o tempo certo para perdoar, reinventar sonhos, refazer caminhos, só porque os campos começam a florescer e recriarem-se em cores e perfumes.

Eu lembrava toda essa transformação, ao mesmo tempo em que pensava que foi em setembro do ano de 2018 que perdi a mais mimosa flor da vida: aquela que me deu de graça a flor mais perfeita de mim, a vida. Setembro de 2018 começou e as flores, mesmo no Sertão de clima semiárido chegaram. Elas enfeitaram os ipês raros da nossa terra, coloriram as ervas da caatinga e deram novo tingimento ao mato rasteiro que até enverdeceu com a nova estação.

Como admiradora das flores, fã número um da magia, do perfume e do tom que elas conseguem dar ao mundo, a entrada do mês que também inicia a sequência dos meses finais do ano, chamados de final BÊ-RÊ-O-BRO/ BRO em 2018 para mim foi igualmente voltada para a alegria das flores. Pena que durou pouco porque entre os dias 09 e 10 deste período, vivi junto com meus irmãos e toda a família as dores diárias da enfermidade e morte da nossa mãe.

Esse fato deu um novo sentido, para mim, à entrada e ao fim de setembro, e talvez, para sempre, aos meses que findam com BRO. É doloroso ouvir Sol de Primavera sem lembrar dessa dor. Sem pensar que aquela flor ainda tão vívida, tão ávida, tão colorida de sonhos se foi justamente no mês das flores. É infinitamente inesquecível a sua imagem, sua voz, o seu cuidado. É também infinitamente inesquecível a memória de tudo que foi, que ainda é, e da falta que faz.

Percorremos um ano de sua partida, mas, vez por outra, ainda vivemos a ilusão de que a sua vida está aqui em setembro e todos os outros meses que se seguem. Agora mesmo, acordamos do sonho. Faz um ano que essa vida está apenas no nosso amor, no nosso coração, na nossa memória. Mesmo assim, continuamos te amando.
E quando entrar setembro, em todos os anos, o sentimento de SAUDADE desta flor que não chegou, foi-se, vai sempre aflorar em nós.

Mônica Freitas

terça-feira, 27 de agosto de 2019

A VULGARIDADE É LIXA ÁSPERA



A vulgaridade é lixa áspera em que me ralo toda. E a vulgaridade está comandando o momento. Tento entender como queimamos as pontes que nos ligavam a comportamentos mais elegantes.

Somos seres de rituais. Do café da manhã ao casamento, tudo é ritualizado. E cada rito é um combo que vem com seus próprios trajes e linguagem. Não participamos dos rituais com as mesmas roupas com que enfrentamos o batente. Nem com o mesmo espírito. Como um instrumento, o ritual exige embocadura.

Os juízes do Supremo usam togas, os padres usam batina, os generais usam fardas. Os trajes dizem do cargo. E, quando no cargo, quem os veste fala linguagens condizentes.

Mas o presidente fala à nação envolto na capa do barbeiro e com voz displicente diz inverdades ofensivas, enquanto o profissional faz seu serviço de tesoura cuidando para não encobrir o cliente. Não se trata de acaso nem descuido. A cena bem concebida faz parte da estratégia “gente como a gente”.

Produto dos tempos modernos, essa estratégia destina-se a falar diretamente com o eleitor que gosta de se ver representado ipsis litteris, quase como em uma caricatura, e busca entre os candidatos aquele que replica não só seus pensamentos como suas próprias atitudes, que diz frases de botequim como ditas diante do balcão. É o eleitor que ainda não assimilou o conceito de representação simbólica. E, ao que parece, há muitos.

Estratégia idêntica comanda frases como: “Os caras vão morrer na rua igual baratas, pô. E tem que ser assim”, em que o desleixe da frase veste de cores populares a ferocidade do conteúdo, e angaria seguidores a favor da “retaguarda jurídica”, porta aberta para os policiais matarem livremente.

É o mesmo princípio da propaganda que, em frases destinadas ao grande público, comete erros propositais de português para facilitar a identificação e garantir a aquisição do produto.

As redes sociais, veículo favorito do clã presidencial, aninham alto grau de estratégia e de vulgaridade. A estratégia mais frequentada consiste em mostrar-se melhor do que se é na realidade. Chama-se a isso “construir a imagem”. Arriscada arquitetura que põe na fachada somente o belo, e deixa o feio escondido, corroendo as estruturas –bom exemplo disso está na novela das nove, com a vilã construindo imagem impecável enquanto peca nas coxias. “Construir a imagem” tornou-se lícito, não sendo considerado imoral ou sequer expediente enganoso.

A vulgaridade vai por conta da exibição. No passado remoto em que fui educada, exibir-se ou gabar-se era deselegante. Hoje é dever de cada um, atalho certo no caminho que conduz aos tapetes vermelhos e aos milhões de seguidores. Fomos engolidos pela multidão, só ganha destaque e dinheiro aquele que consegue emergir. E todos os meios para isso são considerados válidos, legítima defesa contra a escuridão do anonimato. Mais brilha quem mais se exibe.

Tenho me perguntado para que porta-voz oficial se quem porta a voz do presidente é ele mesmo, galopando desenfreado no dorso do Twitter ou em situações nada oficiais. O palavreado chulo, grosseiro, que não faz questão de disfarçar o ódio, brota inesperado e nos cobre de vergonha.

As pontes para a elegância foram queimadas há tempos em favor do mercado, e progressivamente cada um queimou as suas. Parafraseando o poeta, a elegância é só um quadro na parede, mas como dói a sua ausência.


Marina Colasanti

sábado, 20 de julho de 2019

OS VALORES IMPLÍCITOS NA ADJETIVAÇÃO DE “PARAÍBAS” AO NORDESTINO





Tendo estudado ou não Geografia, grande parte dos nordestinos sabe, entre estes muitos que não sabem ler e nem escrever porque dedicaram sua vida a resistir aos encautos do clima semiárido, que somos um povo diferente de todos os outros do resto do Brasil. Não foi a toa que o pré-moderno Euclides da Cunha escreveu em sua obra  OS SERTÕES que “o sertanejo é antes de tudo um forte”, quando se referiu ao aspecto climático do Nordeste brasileiro.

Somos ascendência de um povo descrito pelos cronistas portugueses da época da colonização, como é o caso do Gabriel Soares de Sousa no seu TRATADO DESCRITIVO DO BRASIL, de 1587, como selvagem e bárbaro, adjetivos direcionados àqueles índios chamados de “tapuias” que habitavam as encostas dos rio Paraíba, Maranhão e Rio Grande e eram valentes e guerreiros ao defender as suas lavouras que ora estavam sendo invadidas pelos europeus exploradores.

Não obstante, esses povos primeiros tiveram comportamentos muito parecidos com o povo de Canudos em Pernambuco no final do século XIX ao defenderem a sua aldeia quando o Governo da República Velha não os aceitou com suas especificidades culturtais e religiosas. A descrição de Euclides da Cunha àquele sertanejo não foi, mais uma vez reafirmando, do nada.

O nordestino não foge também da descrição bastante prática e real que marca a sua característica linguística, também herdada de sua ancestralidade autóctona, dada pelo poeta Patativa do Assaré, que tão bem demonstra o espírito forte e lutador desse povo, através de seus textos originalmente escritos no nosso dialeto.

Também nos adequamos, nós nordestinos, a todas as caricaturas personalísticas propostas pelo nosso mais atual literato que o espírito ainda soa bastante vivo na nossa memória, o dramaturgo Ariano Suassuna, nosso contemporâneo “paraíba”.

Ao mundo afora, também não fugimos dos tantos efeitos de estilos que enfeitam a musicalidade, o ritmo, as melodias e notas empregados para dar sentido à arte nordestina que incendeia mundos e fundos, dentro e fora do Brasil e encanta os mais inteligentes apreciadores.

Não estaríamos tão distantes da adjetivação proposta pelo nobre Presidente Jair Bolsonaro, caso os motivos, o contexto e os fatores que lhes obrigam a descrever o nordestino como “paraíba” fossem os mesmos utilizados em todos esses contextos artísticos que descrevemos, pois são eles que revelam nossa mais nobre individualidade enquanto indivíduo social de caráter especial da nossa nação.
Não. Não ficaríamos irritados, muito menos indignados.

O problema é que, na sua fala, que até agora não sei se adquirida criminosamente ou não ou se captada por acaso, já que vivemos a Era da Tecnologia Digital e temos em mãos, quase sempre, um desses aparelhos que captam imagens e sons e podemos usá-lo de muitas formas e para atender diversos interesses, os valores de referência negativa ao povo nordestino foram veementes. Inegáveis, na sua expressão discursiva e física, na sua linguagem, que já é perceptivelmente específica.

Como sabemos que todo discurso é intencional, não há como não perceber que os valores ali difusos são amplamente negativos, para desqualificar e estimular uma retórica pejorativa, preconceituosa, que faz-nos ocupar o lugar de algo JOCOSO.
Lamentável saber que temos um presidente que tem em sua expressão física o exemplo caucasiano de gente elevadamente desenvolvida, mas, que se utiliza de um comportamento tão VULGAR para falar de “gentes” que pagam impostos, compram, vendem, trabalham, comem e bebem e têm os mesmos direitos instituídos na legislação de uma nação a qual esse senhor governa e que se orgulha, NÃO SE ENVERGONHA, do que já produziu em termos de patrimônio material e imaterial ao Brasil.  

Por Mônica Freitas